Ecosia é um mecanismo de busca que vive alardeando suas credenciais verdes. Na prática, é o Bing repaginado com anúncios próprios por cima. Todo o dinheiro vem desses anúncios.
O grande argumento de venda da Ecosia é que esses anúncios pagam pelo plantio de árvores. Até aí, tudo bem.
Só que a Ecosia tem um extra. Uma IA. Peraí, como assim?
A IA generativa é um enorme desastre ecológico. Treinamento e inferência jogam carbono na atmosfera e sugam água doce. As empresas de IA vão até à Justiça para manter esses números em segredo.
Mesmo assim, a Ecosia insiste que a IA deles é verde! Porque… né, basta colocar a palavra “verde” na frente de qualquer coisa nefasta. Isso tem nome: greenwashing.
A Ecosia incluiu um chatbot da OpenAI em 2024. Batizaram de “Green AI”, o que na prática significava só um prompt inicial greenwashed. Em dezembro, colocaram uma IA de busca, também baseada na OpenAI. Atualmente rodam um modelo Mistral hospedado na Europa.
A Ecosia afirma que: geramos mais energia renovável do que nossos recursos de IA consomem, a partir de fontes 100% limpas como solar e eólica.
Repare bem no que a Ecosia está dizendo — e no que não está. A Ecosia não está afirmando que a IA roda com energia limpa. Se rodasse, eles diriam isso. Mas não dizem.
E gerar energia limpa por conta própria obviamente não faz as emissões da energia suja que alimenta a IA desaparecerem. Ela continua jogando CO2 na atmosfera do mesmo jeito.
Você não vai achar números reais sobre o consumo de energia da IA da Ecosia em lugar nenhum. A Ecosia poderia fornecer números concretos de consumo energético de IA — tanto de inferência quanto de treinamento. Seriam números realmente úteis, com impactos que vão muito além da própria Ecosia. Mas a Ecosia simplesmente não os fornece.
A Ecosia se gaba de publicar um relatório financeiro mensal. Só que isso não é nenhum relatório financeiro detalhado normal, com colunas de números e talvez uma planilha em anexo. São umas manchinhas coloridas numa página marqueteira, com números finais que não mostram como foram calculados. Vai, Ecosia, mostra a planilha para nós!
Existe uma forma óbvia de a Ecosia dobrar instantaneamente o impacto positivo do seu programa de energia limpa pra IA: não mexer com IA.
Os usuários querem essa IA de busca? Não. Os usuários entendem que ninguém pode se dizer “verde” e ter uma IA ao mesmo tempo. Eles são fãs da missão verde da Ecosia, e estão profundamente decepcionados com a empresa.
Os usuários odeiam a IA. A Ecosia sabe que os usuários odeiam a IA, mas os executivos empacaram numa ideia fixa. O CEO disse à t3n (em alemão) em janeiro: “Em três, meses seremos o maior app de IA da Europa.” Não parece que chegaram lá em abril.
Mas tudo bem! Dia desses, a Ecosia adicionou uma opção para desativar a IA. Não é opt-in, é opt-out (leia-se: ativado por padrão). Eles sabem muito bem que quase ninguém mexe na configuração padrão. E assim, podem jogar a culpa em você, usuário, por não tê-la desativado. Pode chamar isso de greenwashing também, se quiser.
Se você ignorar a IA, não vai perder muita coisa. A IA da Ecosia dá respostas até piores que as do Google ou do Bing. O jornalista de clima e energia Ketan Joshi — que cobre IA extensivamente — descobriu que a Ecosia confunde ele com o escritor de viagens de mesmo nome, Ketan Joshi.
Aqui vai um relato do Glassdoor, de um funcionário anônimo da Ecosia: Ouvir os usuários nunca foi o forte dessa empresa, mas agora os usuários estão gritando em todas as plataformas para tirar qualquer coisa relacionada a IA e a empresa simplesmente não liga.
O Glassdoor da Ecosia também conta como a empresa é fissurada em sabotar esforços de sindicalização:
um grupo tentou formar um Conselho de Trabalhadores por causa do aumento de casos de burnout, má gestão e uso de PIPs [planos de melhoria de desempenho], e foram recebidos com todas as táticas conhecidas de “union busting”. Primeiro, foram bombardeados por insultos de colegas, depois um advogado da empresa apareceu na votação pra atrapalhar, o CEO gravou um vídeo ameaçando renunciar se o Conselho fosse formado e, por fim, a maioria dos apoiadores mais vocais do Conselho foi demitida ou recebeu advertências.
Organizações guiadas por valores, hein. Disseram-me que essas alegações sobre a Ecosia sufocando o Conselho de Trabalhadores são verídicas.
Resumindo: alegações verdes vagas sem números concretos, repressão a trabalhadores, e a inclusão de IA — justo a IA — chamada de “verde”.
E aí, qual mecanismo de busca usar então? Bom, no fundo todos são Google ou Bing. Ecosia é Bing com greenwashing. Minha sugestão é que paremos de fazer buscas.
Quem quiser defender a Ecosia, sou todo ouvidos, desde que venha com números concretos e verificáveis. Porque da Ecosia, com certeza, eles não virão.
Publicado originalmente no Pivot to AI em 3/7/2026.